O nome gera expectativas, afinal, quem nunca assistiu ao clássico dos clássicos dirigido por Michael Curtiz em 1942? Pena que o filme foi inteiramente rodado em Hollywood, ou seja… Não espere nada parecido.
Casablanca (الدار البيضاء) fica na Costa Atlântica e é a maior cidade do Marrocos, maior centro industrial e comercial, possui o maior porto (4.º mais movimentado da África), o maior aeroporto em volume de passageiros (Mohammed V) e a maior mesquita do país (terceira maior do mundo). Tantos “maiores” só podiam resultar nisso: decepção. A cidade é praticamente igual à maioria das grandes cidades ocidentais, modernosa. Prédios altos, trânsito, empresas multinacionais…

Sem o charme das outras cidades... Foto: Carol
De Fez para Casablanca de trem, foram 4h. Já tínhamos pré selecionado um hotel - o Transatlantique - mas quando passamos o endereço para o taxista, ele entortou a cara e fez um sinal estranho, tampando metade da boca. Meia boca? Gente, será que essa expressão existe aqui?
- “Half mouth? What do you mean, man?”
O inglês do cara era praticamente nulo, então ele seguiu firme na mímica, tampando metade da boca.
- “Fun!” – dizia ele.
- “Yeees, fun! Uhu!” – respondemos fazendo mímica para diversão.
- “Nooo!” – e lançou uns folhetos de hotel. “This” – apontava – “Good! Transatlantique no!”
Conversa vai, conversa vem, chegamos à conclusão de que o cara era muito religioso e achava que o hotel que escolhemos era meio style putaria. “O hotel Transatlantique tem um ótimo restaurante internacional, além de um clube noturno com música marroquina e dança do ventre” - dizia o guia PubliFolha. Ou então, ele ganha comissão pelos turistas que leva e esse não estava na lista. Mais provável, claro. Ele ofereceu nos levar até o hotel que ele sugeria e, se não curtíssemos, ele nos levava de graça no nosso. Belê.

Casablanca. Foto: Carol
O Diwan Hotel era bem bacana, 4 estrelas a um bom preço (que a Letícia conseguiu pechinchar, claro). Depois de tanto camelar, achamos que merecíamos um bom hotel para fechar a trip. O quarto e o banheiro foram os mais “pans” da viagem e havia um espaço reservado para a reza, com uma seta indicando onde fica Meca e um tapetinho no chão. O restaurante também era maravilhoso, apesar da dificuldade de pedir. Pois é, em um hotel 4 estrelas, somente o cara da recepção falava inglês e o cardápio, só em francês. Ok, a comida bem feita e bem temperada compensou tudo.
Casablanca possui uma das poucas mesquitas no mundo onde não-muçulmanos podem entrar (Hassan II), mas os horários são super restritos e é obrigatório um guia. Além de ser ma-ra-vi-lho-sa, ela possui um minarete de 200m (!) de altura e, se não me engano, é considerado o mais alto templo do mundo. Como os passeios são às 9h, 10h, 11h e 14h e nosso trem chegou às 15h, rodamos. Na verdade, estávamos tão exaustas e amassadas que praticamente não tínhamos pique para mais nada. Fomos para Casablanca muito mais pelo fato do nosso vôo de volta para Barcelona partir de lá.
De noite, a idéia era encher a cara para bebemorar o rolê, mas… no alcohol!
- “Nada mesmo? Nem vinho?” – nem vinho. Ok, brindamos com suco uma das melhores férias das nossas vidas.
Agora era fechar as malas e partir. E a ficha só caiu quando percebemos que a bela melodia dos chamados diários para a oração foram substituídos pelo barulho de carros e ônibus. Casablanca realmente era outra parada.

Grand táxi a caminho do aeroporto. Lá atrás, Dell, Oracle... Foto: Letícia
Marrocos virou parte de mim. Um sentimento egoísta, de querer guardar o país dentro da mala e colocar na minha casa… De querer ler o Corão inteiro e ser amiga de to-dos os marroquinos. De querer aprender árabe, ter uma casa azul em Chaouen e ficar mais para conhecer Merzouga, Rabat, Meknés, Essaouira, Tânger, Volubilis, Agadir, El-Jadida…
O país é cativante e já tem uma porção de casas de atores hollywoodianos, principalmente em Marrakesh. Como lá é o lugar que mais bomba disparado, é bom ficar esperto pois, apesar da grande maioria ser extremamente receptiva, sempre tem os espertos querendo ganhar um extra do turista. Fotografou o macaco? Pagou. Fotografou a criança? Pagou. Fora de Marrakesh, o mercenarismo não é tão feroz e as pessoas são mais relax (também, imagina que saco um monte de nego cor de rosa te fotografando como atração turística).

Mesmo em Marrakesh, ele deixou eu fazer um retrato dele na simpatia...
Se for visitar, é bacana evitar o verão, pois o calor não deixa as pessoas saírem do hotel antes das 16h. Só consumir água mineral (bebidas geladas mas sem pedras de gelo, exceto no Mc Donald’s) e pechinchar sempre, sem vergonha (vira um vício… um problema na volta!). Respeitar a cultura alheia e prestar atenção na roupa que você sai (dependendo do lugar), além de evitar comer na frente deles em época de ramadã é o mínimo.
Em tempo: 1 Dirham = 0,22 Reais.

Tiozinhos simpáticos de Ait Benhaddou.
É engraçado que, mesmo com tantos posts sobre a viagem, parece que ainda tenho muito para contar. Lembro de cenas como a de alguns caras torcendo o pescoço para olhar para uma mulher marroquina com somente o rosto descoberto, ao invés de olhar para um grupo de gringas loiras que passava do outro lado da rua com suas micro saias, provando que a sensualidade passa longe da vulgaridade.
Irônico também foi saber que, lá nos fundamentos do Islamismo, a mulher e o homem são iguais perante Alá. A primeira esposa de Maomé foi uma rica comerciante, mais velha do que ele, e a primeira pessoa a se converter à religião pregada pelo seu marido. Sumemo, o primeiro muçulmano do mundo foi uma mulher. Depois ela morreu, Maomé se casou com outras mulheres sendo Aisha (que se casou aos 9!!), a mais inteligente e respeitada. Quando ele morreu, ela tinha 18 anos e, apesar do Corão estar escrito, muitas dúvidas em relação à conduta ainda surgiam constantemente. Ela virou uma das pessoas mais consultadas quando essas dúvidas surgiam e, juntamente com as pessoas próximas ao profeta, compilaram tudo em Hadiths (uma espécie de guia para os fiéis). Ou seja, a palavra de uma mulher contribuiu para os fundamentos do Islã. Como isso se perdeu? Não dá para contar a história toda aqui, mas em suma, dois caras que não gostavam de Aisha inventaram algumas palavras supostamente ditas por Maomé (“mulheres, cães e jumentos atrapalham a oração” e “aqueles que confiam seus negócios a uma mulher nunca conhecerão a prosperidade”) e eles acabaram tendo mais credibilidade por causa de algumas decisões equivocadas de Aisha.

Nos labirintos de Fez.
Sim, viajar é aprendizado intenso e constante. A vontade de congelar cada momento se transformou em milhares de fotos, filminhos, cds de samples (ops!) músicas árabes, novos amigos e velhas amizades reforçadas.

Saldo final: zero brigas durante a trip inteira! Loviú girls!
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Ah, e a cereja do bolo:
nosso rolê saiu na Revista TPM Ed. 94, edição especial de verão – dez/jan, que ainda está nas bancas (Texto e fotos: Carla Arakaki). De quebra, o primeiro ensaio com os funcionários da Trip!
Special thanks: Carol Sganzerla e Rê Leão!

TPM #94
Sua vez…