Do avião (Vueling , uma dessas empresas aéreas de low cost) dava para ver enormes plantações de laranja e tâmaras, construções cor de terra, pedaços completamente desertos. Mal conseguíamos nos aguentar sentadas de tanta ansiedade. Descemos no aeroporto de Marrakesh sem saber mais do que duas palavras em árabe, sem reserva em hotel, sem noção do que nos aguardava. Não tínhamos nada muito planejado a não ser o bilhete de volta, saindo de Casablanca para a Espanha novamente.
Um busão nos levou ao centro da cidade (nem meia hora de distância). Eram 11h da manhã e o sol fritava. Com uma mala enorme nas costas (deixamos metade em Barcelona) e um guia na mão, começamos a perguntar – em inglês – onde ficava a famosa Praça Djeema El Fna.
Mal sabíamos pronunciar esse nome mas foi fácil, muita gente entendia inglês e indicou certinho. Achamos meio estranho, mas as mulheres mais cobertas nos evitavam. Eu tinha pesquisado na net uns riads fofos e marcado o “Sherazade” como tentativa número um. Riads são ex palacetes que viraram acomodações bem fofas, onde todos os quartos são diferentes e dão para um pátio/ jardim interno. Deu certo, sorte que estávamos na baixa temporada… O quarto era uma graça, mas não tinha frigobar nem tv e eu estava bem curiosa para conhecer a programação deles. Jogamos as malas no quarto, trocamos a calça jeans e tênis por roupas mais leves e fomos ver a cidade.
Marrakesh é um destino bem turístico, soube que vários atores gringos tem casa por lá e, em dezembro, há um badalado festival de cinema. Por onde andávamos, os sorridentes marroquinos nos perguntavam de onde vínhamos (“Brasil? Oooo Kaká!” – É, Ronaldos já eram), se apresentavam, queriam fazer amizade.
“Quero comer em um restaurante beeem típico” – disse Letícia, empolgada. Minha primeira refeição foi um lindo couscous marroquino com frango e legumes, coca-cola gelada (mas sem gelo) e pão. Tudo lá vem acompanhado de pão árabe.
Ficar ao redor da Praça Djeema El Fna é estar bem localizado. Tudo é muito perto. Fomos caminhar pelo souk Smarine, que são mercados e lojinhas de ruas. Especiarias, tapetes, lenços, cosméticos, luminárias, narguilés, babouches, um mundo colorido, cheiroso, fascinante (agora entendo por que o Saara no Rio tem esse nome, me lembrei muito da 25 de Março). Tudo lá deve ser pechinchado, sem vergonha (até táxi, que é baratíssimo).
Eles colocam valores meio absurdos para chegarmos a quase um terço do preço. Muitos são tão invasivos que chegam a pegar no braço para mostrar as incríveis mercadorias de sua loja. Um pouco irritante. Eles ficam arrasados quando você negocia muito e acaba não levando, inclusive acreditam que, se perderem a primeira compra do dia, vão ter um péssimo dia de negócios.
Passamos pela lindíssima mesquita Kotoubia que tem um minarete de 70m (torre com alto-falantes que chamam para rezar as cinco vezes ao dia) e serviu de modelo para o estilo marroquino de minaretes: quadrado, com três esferas em seu topo. Segundo a lenda, essas esferas foram feitas com as jóias derretidas de uma das mulheres do sultão el-Mansour, como castigo por ter quebrado o Ramadã comendo três uvas.
Calculamos as 3 horas de diferença de lá para o Brasil e procuramos uma teleboutique para ligar para maridos e pais e avisar que estávamos bem, ninguém havia nos trocado por camelos, ainda.
O céu já começou a escurecer e as luzes da Praça Djeema El Fna começavam a brilhar. Ela é considerada um “Patrimônio Imaterial da Humanidade” pela Unesco de tão incrível. Dá para considerar um restaurante ao ar livre com numerosas barraquinhas oferecendo comidas variadas a preços mais do que honestos, contadores de histórias, encantadores de cobra, dançarinos, tatuadoras de henna. Uma mistura fascinante de sons e cheiros, contra a agoniante sensação de que eu não ia conseguir passar isso pela câmera fotográfica. Aliás, foto é algo que eles odeiam, provavelmente por causa da quantidade de gringos fotografando-os como atrações turísticas. A maioria pede dinheiro ao ser clicado, especialmente as crianças (fucking mercenárias), e como eu estava com uma reflex que precisava ajustar iso, velocidade, abertura, foco, tive que criar metódos como fingir que ia fotografar uma amiga e apontar um pouco mais para o lado. Nem sempre deu certo, tomei vários xingos mas valeu a pena.
Comemos um côngrio à milanesa com molho de tomate e pão árabe. O suco de laranja mais doce que tomei na vida era de lá, provavelmente pela enorme quantidade de sol que as plantações recebem o ano todo. Agendamos nosso rolê para o Sahara do dia seguinte (eu conto depois) e fomos dormir cedo, exaustas.



















AQUILES E A TARTARUGA (Akiresu To Kame), 2008, Japão, dir.: Takeshi Kitano. O paradoxo acima é estranho mas não vem ao caso desenvolvê-lo, o que nos interessa aqui é a metáfora para o filme que mostra várias fases na vida de Machisu, um pintor nato mas frustrado. Ele é tão fofo e engraçado que é impossível não simpatizar, tanto na fase criança como a adulta e a velhinha (que por um acaso é interpretado pelo próprio Beat Takeshi – esse é o aka dele)… Super talentoso, ele começa a ouvir pitaco demais e se deixa influenciar, o que acaba criando uma confusão mental e o impede de encontrar um estilo próprio. Críticas construtivas são sempre bem vindas, mas entre ouvir e seguir fielmente há uma longa distância. Impossível não comparar com música, onde todo mundo acha que ”essa caixa ficaria melhor que esse clap” ou “a participação do som deveria ser outra” ou ainda “a levada está muito previsível”. Se você faz algo com o objetivo de agradar alguém que não você mesmo, você será um músico medíocre. Foi o que aconteceu com o coitado, que não conseguia vender um único quadro…





























