O trem para Fez (فاس) saía às 9h45, tempo exato de comprarmos umas cocas, café e um sanduíche murcho do dia anterior no único café da estação que abria “cedo”: 9h30. Seriam 7h de trem sem ar condicionado, como minha pressão já é naturalmente baixa, achei melhor prevenir: “Do you have salt?” “Sauce?” “Noo, salt!” “Oh, ok!” E me deu um catchup e uma mostarda.

Estação de trem (se não me engano, em Meknés). Foto: Letícia
O trem de lá, além de pontual, barato e eficiente meio de transporte, é uma graça: amarelo e vermelho meio retrô, com poltronas de couro marrom… E vazio, cada uma pegou duas poltronas para deitar! Quente, quente, todos procuravam o ventinho que entrava pelas janelas. Um detalhe meio irritante é que grande parte dos caras por lá gostam de ouvir música árabe no celular SEM FONE. Pensa naquela música agudíssima, mesmo bpm, mesma bateria por horas… Solução óbvia… I pod. Agradeci muito a mim mesma por ter comprado aquele fonezinho Sennheiser em Barcelona. Conforme as horas e as estações de cada cidade passavam, o trem ia enchendo e a quantidade de turistas, diminuindo consideravelmente. Quando finalmente chegamos ao nosso destino, o trem estava tipo o metrô de Sampa: muita gente de pé se esmagando, ninguém esperava as pessoas saírem para depois entrar… Dois caras discutiram na porta, será que era o jejum do Ramadã que estava deixando as pessoas mau humoradas assim? Como a galera tava olhando muito para nós, achamos melhor cobrir pelo menos os ombros. Respeito pela cultura alheia é bom e todos gostam.
Com um pouco de custo, pegamos um petit táxi para nos levar ao hotel (Fes Inn, tem até bar e piscina!). O hotel é um pouco afastado mas o preço do táxi equivalia a uma passagem de circular (diferente de Marrakesh, aqui o taxímetro valia). A cidade não parecia ser muito bonita à primeira vista, meio pobrinha, descobrimos então que havia a parte nova e a antiga.

Fez e os petit taxis. Não é tão bela... Foto: Carol
A cidade é a terceira maior do Marrocos, depois de Casablanca (a mais ocidental de todas) e Rabat (a capital do país), e a mais antiga das cidades imperiais. É conhecida por ser a cidade islâmica mais completa do mundo árabe além de centro religioso e cultural. Lá existem duas medinas, sendo uma delas (Fez el-Bali) tombada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.

Fez el-Bali
Agendamos um guia para o dia seguinte já que lá predomina o árabe e o francês e comemos um spaghetti ao molho sugo incrível no hotel (já não aguentávamos mais o sabor do curry). Fomos também até uma telebutique dar notícias de vida. Telefonar para o Brasil é bem mais caro no Marrocos do que na Europa, decidimos nos comunicar por email. Detalhe: eu sempre pegava um computador podre com o teclado apagado e, para completar, as letras ficavam em lugares diferentes do nosso teclado. Praticamente catando milho, cheguei ao cúmulo de ter que copiar e colar letras!!
No dia seguinte tomamos o café da manhã simpático do hotel (o velho amigo pão árabe, o também conhecido croissant – igual ao que levamos para o deserto, panquecas, mel, suco de laranja e ovo mexido: nada de frutas ou frios) e fomos para a medina mais bacana: Fez el-Bali. Cheia de ruelas (algumas tinham meio metro de largura, juro!), às vezes meio escuras, parecia um labirinto. Ainda bem que pegamos um guia, sozinhas seria praticamente impossível… Comprar não foi tão difícil pois essa arte é bem conhecida internacionalmente: aponta aqui, mostra a calculadora com valor, eu mostro meu preço na mesma calculadora e assim vai… “oh, thank you, chuckran, merci, gracias, arigatô, valeu!”

Vai um frango?
Finalmente nos deparamos com carne e cérebro de camelo à venda (quando fotografei, o vendedor falou algumas palavras em árabe e fez cara feia tampando a mercadoria). Galinhas, perus, escargots, gordura animal, era o souk das carnes.

Céééérebro de cameeeeelo! Brrrr!
Passamos depois pelo souk de especiarias, de sedas, paramos numa tecelagem maravilhosa (vários lenços adquiridos), fomos até a imponente medersa Bouanania (construída no séc 14 pelo sultão Abou Inan, acusado de ter mais interesse em sexo e assassinatos do que religião) e, finalmente, para o famoso curtume. Na entrada ganhamos um maço de hortelã para amenizar o cheiro, mas eu esperava algo tão ruim que quando cheguei lá não achei tão insuportável.

Levemente fedorento, o famoso curtume!

Escola Corânica. Foto: Carol Gariani
Vimos poucos turistas (talvez por ser baixa temporada) e muitos marroquinos seguindo seu dia a dia, fazendo compras de alimentos, roupas. É super comum ver dois caras de mãos dadas. Dar 4 beijinhos no rosto então, é default (digo homem com homem, não vi nenhuma mulher se cumprimentando). Como era a última semana do Ramadã, as crianças estavam super maquiadas e enfeitadas, com henna nas mãos e roupas especiais.

Toda enfeitada para o final do ramadã! Nhoc!
Na hora de acertar com o guia (oficial, solicitado no hotel), o furo nos zóio:
- “well, 250 dirhams!”
- “No, our deal was 150 dirhams for 3 hours!”
- “we passed half an hour!”
- “af, take it” - e põe no… bom deixa quieto, o rolê foi demais…
Fomos ao Mc Donalds pois ainda estávamos com um leve bode de curry. De diferente, tinha dois modelos de Mc Arabia (um com berinjela e outro de tahine, estranhaço), um tal de Mc Gambas (hamburguer de camarão) e uma batata frita super picante deliciosa. Comi uma salada (sabor plástico) pois estava no desespero de comer alguma folha ou legumes, a batata super picante e nosso conhecido Mc Chicken. De sobremesa, Mc Flurry de Kit Kat.

Acho que esse Mc Arabia de berinjela não vai pegar no Brasa...
Na saída, tentamos pegar um táxi, mas mais de meia hora e nada: ou estavam cheios ou simplesmente passavam reto. Um detalhe engraçado é que eles podem pegar outros passageiros mesmo já tendo alguém no carro. Tentamos mudar de cruzamento e nada. Um taxista repetiu várias vezes para nós uma palavra que tentei decorar, mas como minha memória é… eu esqueci. Seria porque estava perto do horário do desjejum? Seria porque somos mulheres? Ou porque somos turistas? Ou porque não foram com nossa cara? Nunca vou saber porque ninguém nos queria como passageiras. Finalmente, um simpático marroquino nos ajudou mesmo não entendendo patavina de inglês ou espanhol. E viva a educação! E a mimíca!
De noite, drinks no hotel: nossa primeira bebida alcoólica no Marrocos. Cheers! A viagem estava no fim mas o dia seguinte estava sendo ansiosamente aguardado: Chefchouen!! A cidade azul!
Sua vez…